Foi como o som de um alarme a me despertar a proposta desta atividade. Parar e "pensar" sobre o trajeto que realizo entre a minha casa e a escola...é algo novo, pois sempre o fiz sentindo e somente hoje é que parei a fim de organizar minhas sensações e emoções a esse respeito. E, num segundo, lá estava eu a percorrê-lo na minha imaginação, buscando os detalhes, as nuances, o que há de singular...
Moro em
Porto Alegre e trabalho numa escola que fica encrustada no condominio onde moro. Sim, há muito em comum entre o Condomínio e a Escola, a começar pelo nome. Ele foi construído numa grande área onde antigamente era uma chácara, e a Escola foi erguida praticamente no centro deste condomínio. Das quatro divisas do terreno da escola, três são com o condomínio e a outra para a Avenida.
Estamos numa região com muitas árvores, algumas delas centenárias, há uma enorme variedade de espécies e também de plantas, acredito eu que o nome dado foi devido a natureza que os circundam.
Ao sair do apartamento onde moro, subo um lance de escadas e me deparo com imensas árvores a me acompanhar no trajeto, que levo aproximadamente dois ou três minutos para percorrer.
Gosto de observar os raios de sol por entre as árvores, nos dias ensolarados, posso apreciar um espetáculo único, vibrante, cheio de vida e luz!
Não transito por ruas externas, apenas por acessos internos, uma vez que o portão de entrada da Escola se localiza ao lado de uma das portarias do condomínio, portanto, as pessoas que cruzo pelo caminho, são todos meus vizinhos, alunos e amigos, sempre algo bem peculiar.
Esta minha travessia (afinal é isso o que faço, atravesso o condomínio) se repete quatro vezes ao dia, duas de ida e duas de retorno, num aclive quando o meu deslocamento é em direção a escola.
O que me chama muito a atenção são as transformações que as árvores sofrem ao longo das estações, em especial os plátanos, que durante o outono, cobrem o chão com suas folhas secas e, eu simplesmente adoro pisá-las, o "creckt" que produzem quando as piso é inigualável e isso sempre me lembra um livro que certa vez li, onde falava exatamente disso: a liberdade e o prazer da interação com a natureza, as sensações ao se pisar nas folhas secas caídas no chão....
Também gosto muito de observar um pinheiro enorme, que em função de um dos prédios, pintados de branco e verde, cresceu torto, inclinado, com sua imponência e uma cor forte a se destacar das demais árvores que o cercam.
Logo ali, no rápido trajeto, também encontro um coqueiro, daqueles que me fazem reviver a minha infância, quando acampávamos em família, numa praia repleta desses coqueiros e nós crianças, nos divertíamos muito ao comer os "butiás ou coquinhos",( já nem lembro mais o nome certo) mas as imagens permanecem bem vivas até hoje na minha lembrança, me fazendo voltar no tempo cada vez que os avisto.
Lembro agora, de quando estava grávida, o trecho que caminho, à medida que minha gestação avançava, ia se tornando mais e mais longo, parecia não ter fim, e o tempo que eu levava para percorrê-lo só aumentava e eu sempre ficava ofegante.
Posso observar também, durante os meus deslocamentos a rotina dos meus vizinhos, saindo e chegando, começando um novo dia ou retornando ao final dele. É o trabalho, a escola dos filhos, os outros compromissos, tudo isso se desenvolve no dia-a-dia. Um rápido "oi", ou às vezes, quando a correria nos dá uma trégua, aquela paradinha para colocar o papo em dia, dessa forma as relações se estabelecem e nunca me sinto sozinha ao me deslocar até a escola.
Muitas vezes, ao me deslocar, vou encontrando colegas de trabalho ou alunos que também moram no condomínio e, vamos todos, num alegre papo até a escola. Já na travessia da portaria entre o condomínio e a escola, ali sim, posso avistar a Avenida , seu movimento quase que exclusivo de estudantes e pais, os burburinhos dos grupos, a agitação da gurizada na frente da escola. Isto para mim tem cheiro de vida. É uma ebulição de idéias, sentimentos e sonhos!